quarta-feira, 30 de maio de 2012

Cultura, literatura e tradição: 20ª edição da Festa da Cavalgada à Pedra do Reino emociona mais uma vez belmonteses e turistas - por Luíza Tiné


A tradicional festa realizada anualmente, inspirada nas lendas do movimento sebastianista e no livro de Ariano Suassuna movimentou o sertão pernambucano 
O município de São José do Belmonte viveu entre os últimos dias 24 e 27 de maio um dos finais de semana mais esperados pela população. A festa da Cavalgada à Pedra do Reino reuniu, mais uma vez, belmontenses e turistas, todos unidos pela mesma paixão de viver cada segundo do tradicional evento. Foram quatro dias de festa que deixaram um ano inteiro de saudades, mas por outro lado, a grande expectativa para o ano que vem.
No ano de 2012, a Cavalgada chegou a sua 20ª edição, comandada pela Associação Cultural Pedra do Reino em parceria com a Fundarpe e o Governo do Estado de Pernambuco. Fugindo a regra dos anos anteriores, pela primeira vez a festa não foi realizada nas ruas e sim no Espaço Belo Monte Cultural e no Estádio Carvalhão. No início, houve quem reclamasse e discordasse da decisão tomada pelos organizadores, mas no fim das contas, a festa foi um enorme sucesso e reuniu milhares de pessoas, independente do lugar.
O Espaço Belo Monte Cultural, na quinta-feira (24) sediou a primeira noite, com shows de Mazurca de Mãe Coca, Maviael Melo, Assisão e Pedro Carvalho. Quem também marcou presença na terra da Pedra do Reino para abrir os festejos foi o cantador Santanna, que ao som de músicas já conhecidas pelos belmontenses, animou o início das comemorações. O público presente, ainda em um número não tão grandioso, já mostrava os sinais da alegria de estar participando da festa.
Na sexta-feira (24), a expectativa era para conferir como seria a festa no Carvalhão. E para a grande maioria, em nada desagradou, nem mesmo a chuva que começou a cair durante o show da sambista Gerlane Lops, que foi até São José do Belmonte pela primeira vez. Esta também foi a primeira vez que o ritmo foi inserido na programação da Cavalgada. A chuva, que é sagrada no Sertão, caía do céu, mas não foi o suficiente para desanimar o público, que mesmo debaixo d’água, continuou aproveitando a noitada. No estádio, as barracas foram montadas assim como uma estrutura com banheiros químicos e um grande palco, que recebeu também shows do Quinteto Violado, Samba de Coco Raízes de Arcoverde e do poeta Anchieta Dali, representando a nossa terra, mostrando através da música o que a cidade tem de bom.
O município inteiro respirava cultura. O Castelo Armorial, localizado logo na entrada da cidade, reunia cada vez mais visitantes que iam conferir de perto a trajetória da festa no decorrer dos anos através das milhares de fotografias espalhadas pelas paredes e principalmente, a cidade cenográfica que fica no último andar e a vista panorâmica da cidade. Ao lado do monumento, na tarde do sábado (26) a Cavalhada Zeca Miron reunia os times azul e encarnado, com cavaleiros e madrinhas que representavam os Mouros e os Cristãos na disputa para coroar a rainha, que em 2012 foi vivida pela jovem Millena Carvalho Guimarães, filha de Ivaldo Guimarães e Edilene Carvalho, e sobrinha de Ernesto Sávio, uns dos membros mais antigos da Associação que participam ativamente da organização. O irreverente Quaderna, personagem principal do livro de Ariano Suassuna que deu origem à festa, interpretado por Renato Magalhães, acompanhava tudo de perto, sempre esbanjando simpatia e bom humor. Para a Cavalhada, tudo foi pensado nos mínimos detalhes: desde a maquiagens das meninas até o fardamento dos rapazes, que foram bordados à mão. No rosto de todos os que participavam da cerimônia, estampado o orgulho de fazer parte de um dos momentos mais importantes da festa.
Enquanto isso, na Praça Sá Moraes, a festa rolava na Budega do Dida. Por mais um ano, o proprietário do estabelecimento, Adriano Oliveira, contratou um sanfoneiro para animar a turma até perto da hora de ir para os shows no Carvalhão. A essa altura, gente das cidades vizinhas como Mirandiba, Salgueiro, Parnamirim e Serra Talhada já começavam a chegar. À noite, sem dúvidas, o show de Alcymar Monteiro foi o mais esperado. “Belmonte, Belmonte… quem te conhece que conte” foi assim que o cantor iniciou a apresentação, sendo ovacionado pelos belmontenses que tem a música como um hino. A terceira noite da festa, que homenageou Luiz Gonzaga, ainda contou com shows de Waldonys, Coco de Umbigada e Quarteto Olinda. O dia estava perto de amanhecer, mas ninguém queria ir pra casa. Todos esperavam ansiosos pelo raiar do sol, onde na calçada da Matriz de São José, o vigário iria abençoar o rei, a rainha e todos os cavaleiros que iriam subir a Serra do Catolé.
Eis que no domingo (27), o ápice do evento. A tão esperada Cavalgada. O dia ainda não tinha nem amanhecido e a banda de pífanos já esperava o cortejo em frente à Igreja. A tradicional alvorada com os fogos acordava os belmontenses, os chamando para prestigiar o momento crucial. Mouros e Cristãos reunidos mais uma vez, agora acompanhados de vaqueiros devidamente empunhados com as bandeiras do país, do estado, do município e da Associação Cultural Pedra do Reino, Lampião e Maria Bonita e mais uma série de apaixonados pela festa que fazem questão de ir até o sítio histórico a cavalo, celebrando a cultura e a literatura que movem a festa.
A presença do rei e da rainha, que representam a tradição do Sebastianismo, são as mais esperadas. Em 2012, o recifense Marcos Vinícius Lucena, grande amigo dos organizadores da festa, pela qual tem muito carinho e faz questão de divulgá-la pela capital, incorporou o rei. Já a rainha ficou sob a responsabilidade de Ana Carolina Pereira, que mora no Rio de Janeiro, mas vem de uma das mais tradicionais famílias da cidade e não perde uma só edição da Cavalgada desde pequena. A jovem seguiu acompanhada do pai João Bosco, filho da terra, e dos irmãos Thiago e Raphael, também devidamente caracterizados como manda o figurino da festa. E como diz o samba da escola Império Serrano, a Cavalgada partiu lá de Belmonte para a Serra do Catolé, levando em todos aqueles cavaleiros, a alegria de um povo que não esconde a satisfação de ter um evento tão grandioso em sua cidade. O forte sol e a intensa poeira não eram nenhum problema pra quem leva a festa no coração e se emociona a cada ano que passa.
O cortejo real chegou até o Reino Encantado sob a troca de espadas dos Mouros e Cristãos, muitos fogos e aplausos. Uma das cenas mais marcantes para quem é de São José do Belmonte e também para os turistas, que se encantam com a cultura da cidade. Quaderna entrega a espada ao rei, que de mãos dadas com a rainha, reverencia todo aquele povo sertanejo e sua tradição, aos pés da dupla de pedras que formam um dos monumentos mais bonitos do estado de Pernambuco. Um verdadeiro espetáculo digno de se ver e viver. Já lá em cima da serra, Jackson da Sanfona e a banda Paixão Nordestina se apresentaram na festa pela primeira vez, mostrando também os talentos musicais da cidade. O dia inteiro foi de muita farra e forró no sítio histórico, que contou também com shows do salgueirense Danilo Pernambucano.
O sol aos poucos ia se pondo e ia chegando a hora de se despedir de tudo aquilo. A volta para a cidade, no entanto, foi complicada. O grande número de carros e motos espalhados e mal estacionados no local dificultou a única via de acesso a São José do Belmonte, causando um enorme engarrafamento. De toda a festa, um ponto de suma importância que deve ser reavaliado pela organização para que não se repita no ano que vem, devido as grandes proporções que o evento está tomando. Mas nada que apagasse o brilho de mais uma Cavalgada. Todos os que compareceram àquele lugar mágico, com certeza, voltaram para a casa com um sentimento de que valeu à pena cada segundo, desde a quinta até o domingo. Sem dúvida alguma, uma ansiedade que já existe para o ano que vem e o orgulho de mostrar para todos nas semanas seguintes através dos vários registros em fotos e vídeos o que se tem de melhor em São José do Belmonte, disseminando a cultura do município para trazer cada vez mais olhares para a Festa da Cavalgada, que merece sem dúvida alguma, o reconhecimento do país inteiro.
Texto escrito por Luíza Maria Tiné, jornalista, filha de Belmonte, assumidamente apaixonada pela festa da Cavalgada

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