quarta-feira, 29 de maio de 2013

CAVALGADA

Uma das mais emocionantes demonstrações de afirmação e beleza da cultura sertaneja aguarda uma verdadeira multidão neste fim de semana. Misto de teatro popular e religiosidade, a XXI Cavalgada à Pedra do Reino mostrará porque o evento se tornou uma das mais simbólicas manifestações  culturais do estado, marcando o calendário anual de São José de Belmonte, sempre no último domingo de maio. A cidade já está se preparando para o ponto alto da celebração popular, neste domingo (26), relembrando a história do seu povo, que envolve misticismo, tragédia e poesia, contada e recontada há mais de duas décadas.
A Cavalgada à Pedra do Reino foi criada em 1993, e é inspirada nas lendas do movimento sebastianista, que fizeram parte do imaginário nordestino no século XIX. Outra fonte de inspiração do evento é o Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. O espetáculo remonta ao tão esperado retorno do Rei Dom Sebastião, que traz consigo sua corte, formada por seus valorosos cavaleiros. Cultura medieval e sertaneja se transformam numa só e relembram um momento histórico do lugar, cheio de simbolismo: a tragédia ocorrida em Pedra Bonita – atual Pedra do Reino – onde ocorreu o sacrifício sangrento de 80 pessoas, em 1838.
Cerca de 450 cavaleiros e amazonas são esperados para empreender 27 km de um trajeto, que tem início  ainda na madrugada deste domingo, com a chegada dos participantes da cavalgada. A saída está marcada às 5h30, saindo da Igreja Matriz de São José do Belmonte, onde todos receberão a bênção do padre para seguirem em paz a sua jornada. O momento seguinte é a parada para o café da manhã dos cavaleiros e amazonas.
O percurso dura, em média, seis horas, e culmina com a chegada na Serra do Catolé, onde está localizada a Pedra do Reino. Este é o momento mais simbólico do evento. No local, aconteceu uma verdadeira chacina, com oitenta pessoas sendo atiradas das pedras (de altura média de 30 metros), seguindo ordem de um líder do movimento sebastianista, João Ferreira. Segundo ele, o retorno de Dom Sebastião só se concretizaria quando o lugar fosse lavado com sangue. Em lembrança aos mortos nessa tragédia, é realizada uma missa campal, que terá a participação do Coral de Aboio de Serrita, da Banda Filarmônica São José, e dos aboiadores Chico Justino e Cícero Mendes, Valmir Maracanã e Leonardo de Luna.
A Cavalgada à Pedra do Reino é realizada pela Associação Cultural da Pedra do Reino, com apoio do Governo do Estado, através da Secult-PE/Fundarpe e da Prefeitura de São José do Belmonte.




Cavalhada

Como parte da programação da Cavalgada à Pedra do Reino, acontece, na tarde deste sábado (25), a também tradicional Cavalhada Zeca Miron, inspirada nas tradições ibéricas. A partir das 15h, na frente da Igreja Matriz de São José do Belmonte, se concentram 12 cavaleiros, que simbolizam  os 12 pares de França, da lenda “Carlos Magno e os 12 pares de França”, que ganhou popularidade através da literatura de cordel. No local, há a apresentação da Filarmônica de São José.

Nas figuras de cristãos e mouros, os cavaleiros se dividem nas cores azul e vermelho (ou, o “encarnado”, como nos cordões do pastoril), e seguem até o Estádio Carvalhão, onde darão início à competição entre as duas cores. Os cavaleiros, então, arremessam suas lanças na direção de argolas. O vencedor será o lado que obtiver o maior número de argolas, consagrando seu rei como campeão da disputa. A Cavalhada também tem como referência a história da batalha entre mouros e cristão, através da cruzada empreendida por Dom Sebastião, ao norte da África.

















































segunda-feira, 27 de maio de 2013

São José do Belmonte se volta ao mais importante símbolo da cidade: a Pedra do Reino


#Sertão Central | Cavalgada até o centro do universo

São José do Belmonte se volta ao mais importante símbolo da cidade: a Pedra do Reino
A Cavalgada à Pedra do Reino é tradição em Belmonte / Foto: Leonardo Vila Nova
A Cavalgada à Pedra do Reino é tradição em São José do Belmonte / Foto: Leonardo Vila Nova
Por Leonardo Vila Nova
Um estampido de fogos de artifício irrompeu no céu de São José de Belmonte pouco antes das 5h da manhã deste domingo (26/5). Era sinal de que o dia amanhecia diferente na cidade. Era sinal de que, neste dia, era mais um dia de Cavalgada. O destino: a famosa Pedra do Reino, na Serra do Catolé, consagrada como o principal ponto de encontro entre misticismo e teatro popular, que se fundem para contar o momento mais marcante da história daquele povo. Nesta gigantesca pedra, entre 16 e 18 de maio de 1838, numa batalha entre João Ferreira, lunático líder sebastianista, e a Guarda Nacional Brasileira, cerca de 80 pessoas (entre elas, 30 crianças) foram sacrificadas/assassinadas, numa matança sem precedentes, fruto do fundamentalismo que conduziu grande parte dos corações e mentes daquele Nordeste do século XIX.
Desde 1993, no último domingo de maio, São José do Belmonte assiste ao trajeto de 27 km que leva centenas de cavaleiros, amazonas e vaqueiros ao local da tragédia, para reverenciar esta data. A XXI Cavalgada à Pedra do Reino parou a cidade, como vem sendo há mais de duas décadas. Uma das fontes de inspiração da manifestação é também o consagrado “Romance d’A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, que faz a ponta perfeita entre a história de origem ibérica e a tradição do povo sertanejo.
Quando o Sol ainda descortinava na cidade, uma multidão já se aglomerava em frente à Igreja Matriz da cidade, aguardando a tão esperada corte, dividida nas cores cores azul (cristãos) e encarnado (mouros). Sob mais uma salva de fogos de artifício, Rei e Rainha chegam ao local, causando profunda comoção nos populares que lotavam o local. O Coral de Aboiadores de Serrita deu o tom sertanejo à cerimônia, recepcionando a corte, com canções que simbolizam o imaginário do homem nordestino. “Asa branca”, o hino nordestino, sacramentou os filhos de Belmonte. E com a tradicional bênção do pároco da matriz, os cavaleiros partiram, ao som de “Catinga sebastiana” (Ariano Suassuna).  De fato, não há como descrever o que se sente neste momento. Palavras fogem, enquanto sentimentos transbordam, sem qualquer economia.
Olhos fechados durante a bênção, as mãos firmes empunhando as rédeas dos cavalos e lágrimas flagrantes sobre o rosto  deram o tom desse momento tão marcante. Sob os aplausos da população, os representantes da Cavalgada partiram para um trajeto tortuoso, onde a fé e a força de vontade são testadas a cada momento. A estrada de barro seco, que faz subir uma poeira interminável, tendo o Sol como testemunha e os morros já verdejantes – indicando que a chuva já chegara ao Sertão -, são o cenário que compõe a mística jornada. Em cerca de seis horas de percurso se desvela a tão afamada coragem do homem nordestino. Não há obstáculo que a fé e a determinação não vençam. E o destino vai, a cada passo dos cavalos, se descortinando adiante.
Para chegar à Pedra do Reino, não basta somente ir a cavalo. Carros, motos, bicicletas, todos os meios estão à disposição daqueles que querem presenciar o espetáculo. Há 20 anos, quando a Cavalgada deu os seus primeiros passos, não se sabia exatamente por onde ir. Uma das pessoas que indicou, literalmente, “o caminho das pedras”, foi o empresário Aníbal Leonel, que mostrou aos criadores da cavalgada como se chegava ao local. “Eu moro próximo à Serra do Catolé e me perguntaram como se chegava ao local. O acesso só era possível com poucos cavalos e somente dois carros. Esse foi o primeiro passo. A partir daí, o evento foi se sedimentando e foi se tornando cada vez mais grandioso. Hoje temos mais de mil pessoas que vêm a esse local, conhecer essa história que marcou não só o estado, mas todo o Brasil. É lindo ver essa minha cidade  significar tanto para todas essas pessoas“, contou Aníbal.
E o tão profundo significado e importância da Cavalgada estavam presentes no rosto de cada pessoa que cessou o piscar de olhos quando Rei e Rainha adentraram a Serra do Catolé, seguidos de sua corte. Gritos, aplausos, reverências e músicas recepcionaram os personagens mais importantes desse enredo. À frente de todos, Valquíria Novaes, a bela jovem de 18 anos, escolhida como rainha desta edição da Cavalgada. Um sorriso cativante e a inabalável segurança às rédeas do seu cavalo demonstraram a grandeza do símbolo que ela representava ali. “Eu encaro com uma alegria muito grande representar a minha cidade e o povo sertanejo nesta Cavalgada. Trazer de volta a valorização dessa história não acaba apenas hoje, mas seguirá comigo enquanto eu viver e na história de Belmonte, em todas as rainhas escolhidas nos próximos anos“, disse Valquíria, que se revezava entre responder às perguntas e o intenso assédio da população, ávida por fotos junto à atual majestade.
Outra parte desse espetáculo está devidamente representada nos cavaleiros que seguem a jornada até a Pedra do Reino. Homens sertanejos que dedicam parte da sua vida a seguir por entre estradas difíceis – na vida e na cavalgada – e alcançar um destino. Seja em reverência àquelas pessoas que sacrificaram a sua vida em nome da sua fé ou àqueles que lutam para vencer as batalhas cotidianas diante das agruras da vida. Um desses cavaleiros acompanha a cavalgada, ininterruptamente, desde a sua primeira edição. Desde 1993, Clênio Barros veste o seu gibão e segue até a Pedra do Reino. Dois anos após o debute, ele porta a bandeira de Pernambuco, e dela nunca mais se desgarrou. “A capitania hereditária de Duarte Coelho há 21 anos é minha. A bandeira mais linda do mundo está comigo e ela eu não largo. Tenho um carinho muito grande por ela“, declarou Clênio. “Eu estou e sempre estarei totalmente integrado à Cavalgada. Quando, um dia, não existir mais um cavaleiro na Cavalgada, eu estarei lá, mantendo essa tradição. É uma coisa que não há explicação. Se sente, se vive. É o amor maior da minha vida“, confessou, com um sorriso que nenhuma recompensa material pode comprar e reportagem alguma irá explicar. No próximo ano, a XXII Cavalgada à Pedra do Reino aguarda você, que leu este humilde (e impressionado) relato.